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Provamo-la uma vez e eis que estamos condenados a uma espécie de prisão, agrilhoados à intensidade, à robustez, à força de cada garfada (ou colherada, cada qual faz uso da classe que mais lhe convém).
Ela apresenta-se abrasiva, dada a pouca ou nenhuma diplomacia, mas facilmente nos rendemos à exigência. A cachupa é intransigente. A cachupa não faz concessões. A cachupa não está disposta a ser outra coisa. E é por isso que vassalos nos assumimos: cachupa, nosso grande amor.
Vinda de uma ancestralidade em que a regra era aproveitar, transformar, adaptar, a cachupa chega-nos de Cabo Verde, onde os escravos trabalhavam o milho e o feijão dos donos das plantações com a proteína disponível: peixe para quem não podia mais, carnes para quem mais conseguia. A pobre e a rica, ficaram assim denominadas na história, guisada e apurada para conquistar o máximo sabor possível, quente e picante para que cada dose soubesse a vida.
Lisboa, como destino primeiro da diáspora cabo-verdiana, tornou-se também na mesa privilegiada para a cachupa — isto além do arquipélago africano. Mas quando o prato é servido por Milocas, no Centro Cultural de Cabo Verde, junto à Rua de São Bento, África está ali naquele prato.
Milocas, artista culinária de pouca conversa sobre o que faz, de muita simpatia para com todos, escusa-se a explicar segredos a quem os quer descobrir. Diz que é tudo "de memória, sempre foi assim, eu agora sei lá disso dos segredos".
É Maria Belmira de primeiro nome, mas para responder basta que o nosso olhar se cruze com o dela. "Está tudo bom?", pergunta com honestidade, apesar de saber a resposta. Não está interessada em entrevistas, só quer que se coma bem. Guardem-se apenas as regras: "Tem que ter molho, o ovo tem que estar bem feito, tem que picar mas não precisa de matar".
E é esse o outro encanto da cachupa: a boa comida pelo bem, de panela grande e para quantos mais, melhor. A magia repete-se, é sempre assim, neste prato que no dia seguinte pode ser frito ou refogado, para que nunca se perca e sempre se transforme.
Nas Laranjeiras, o movimento ao almoço é imparável, todos os dias da semana. A Tia Alice, é a ela que todos procuram. "Não tenho tempo para conversar agora, amor, mas quer um prato?" E fica o assunto arrumado. Ainda nos diz que não sabe bem "qual é a mais pedida" naquela cantina mais-do-que-clássica, explicando depois que isso "é o que menos importa". O que vale é a casa cheia: “Cachupa dá para almoço de trabalho e almoço de família, é comida de gente boa”.
E estes são apenas dois dos destinos obrigatórios num roteiro da zona de Lisboa com a cachupa no papel principal. Serve para os apreciadores habituais e para os iniciados na religião, para os conhecedores e os que nunca provaram do encanto. É para todos, como a própria cachupa sempre foi. Um contentamento. O roteiro completo inclui com outros quatro locais bem amarrados às raizes de Cabo Verde, onde comer cachupa é uma experiência extra-gastronómica.
É como estar em casa, mesmo naquela onde nunca tínhamos entrado. Porque assim que o fazemos, sorte grande a de encontrar de imediato a própria da Tia Alice, nossa também por afinidade, no trato e na mesa. Esta cachupa refogada leva um estalo de cebola como cama de felicidade, e uma cobertura de ovos estrelado no lugar de carinho supremo. Serve de conforto e de desaforo às regras, quando pedimos o grogue para acompanhar, aquele que por aqui só é feito com rum de Cabo Verde, porque, caso contrário seria outra coisa. Este encanto acontece todos os dias, mas é preciso apanhá-lo à hora de almoço — ou quando as coisas boas têm hora marcada.
Cachupa da Tia Alice: Estrada da Luz 98, 1600-141 Lisboa. Telefone: 963 164 253. Todos os dias, das 12h às 15h
Os tantos que há muitos anos fazem do costume português do almoço a meio do dia de trabalho uma coisa cabo-verdiana estão entre os cidadãos mais sábios de que há memória. Bem no centro de Lisboa, aquele onde se fazem as contas que fazem tudo girar, bem perto do Marquês de Pombal, a Associação Caboverdeana (Solete no Guia Repsol) com porta no oitavo andar não tem só cachupa, mas mesmo que fosse apenas essa a iguaria, que bem que iria — a dita e cada um de nós.
Tão forte de paladar como elegante e clássica ao olhar, é a chamada experiência completa. Quem quiser, que marque um grupo para jantar (vai ser preciso fazê-lo com tempo, porque os jantares são apenas para grupos com marcação). Aqui a especialidade são mesmo os almoços de semana — particularmente os dançantes. Entre o expediente, pode ir dar um pezinho de dança ou apenas ouvir uma música ao vivo, às terças e quintas.
Associação Caboverdeana: Rua Duque de Palmela 2, 8.º andar, 1250-098 Lisboa. Telefone: 213 531 932. Das 12h às 15h. Fecha ao fim de semana.
É preciso muita atitude para se auto-denominar “rei da cachupa”. Mas aqui há tudo o que é preciso: atitude e cachupa, ambas em quantidades generosas. A história e a fama começam com uma primeira morada na Bela Vista. Mais tarde, seguiu-se Arroios e a popularidade continuou. Tony Fox, o Rei da Cachupa, tem agora morada na Casa da Pedra, no Parque da Bela Vista. O sítio é dedicado à cultura caboverdeana, mas a protagonista é só uma - a cachupa do Rei - ainda que possa escolher entre a de carne, a de peixe e a vegetariana.
Casa da Pedra: Av. Dr. Arlindo Vicente, 1950-079 Lisboa. Telefone: 910 800 326. Quarta, quinta e domingo, das 12h30 às 18h. Sexta e sábado, das 12h30 às 00h.
O Coqueiro era o nome da churrasqueira que Maria Patriarca abriu na Cova da Moura, na Amadora, no início dos anos 1980. Quando a família decidiu dar uma nova orientação ao negócio, o nome manteve-se. Daí que, até hoje, tenha alcançado o estatuto de lenda viva.
É um santuário de comida africana e prazeres simples: cachupa à quarta e ao domingo, moamba também às quartas, cozido à portuguesa e chanfana aos sábados. Há famílias, amigos e curiosos, há música e caracóis nos meses deles. Foi para isto que inventaram os restaurantes, nunca duvidem.
O Coqueiro: Rua dos Reis 4, 2610-237 Amadora. Telefone: 968 268 923. De quarta a domingo, das 12h às 19h, segunda das 12h às 17h. Fecha às terças.
Vai querer comer tudo: o caril de frango do campo ou de gambas, o bife de atum, o caldo de mancara, a moamba de galinha, o polvo no forno. Vai querer empurrar a matéria com um sumo natural de calabaceira, pedir a mousse de maracujá, a de manga ou a de camoca — e se não quiser, faça do doce de papaia com queijo de cabra a sua sobremesa.
Vai fazer isto tudo, claro que vai. Mas experimente a cachupa, veja o que faz aquele refogado que só a chef Milocas sabe magicar. Isto é o Centro Cultural de Cabo Verde e não há melhor cultura do que esta, garante quem quer que já tenha provado daquele paladar.
By Milocas: (Centro Cultural Cabo Verde): Rua de São Bento 640, 1250-220 Lisboa. Telefone: 913 823 377. De terça a sábado, das 11h30 às 18h.
África em Lisboa serve-se num prato. O polvo como o que é feito em Cabo Verde é um dos artistas maiores desta casa. Talvez o protagonismo seja trabalhado lado a lado com o atum, que aqui é tratado como artesanato. Apesar de tantas maravilhas, a casa de Edna Brito continua a ser procurada pela cachupa. É referência, é uma delícia de paragem na descida (subida) que vai do Príncipe Real a São Bento (e vice versa) e é até capaz de servir o belo lanche à maneira de Cabo Verde, com o milho e a banana trabalhados como é raro ver. Em qualquer dos casos, reserve com antecedência. Depois não diga que a cachupa acabou — acaba sempre.
Estrela Morena: Rua da Imprensa Nacional 64A, Lisboa. Telefone: 965 185 310. De segunda a sexta, das 12h30 às 15h e das 19h às 22h30; Sábados das 19h à meia noite. Fecha aos domingos.
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