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“Foi o sítio que me escolheu. O sítio já estava montado. Soubemos que estava para alugar, as pessoas que cá estavam até perguntaram se não queríamos ficar com o restaurante, convidaram-nos para ver o espaço.” É assim que começa a conversa com Francisca Dias, chef e mentora do Esteva. Aberto em outubro de 2024 e recolhido num Alentejo recondito, o restaurante teve sucesso imediato e o reconhecimento também não tardou: este ano, foi distinguido com 1 Sol Guia Repsol.
Francisca diz que já tinha ouvido falar do espaço, mas nunca lá tinha ido. O momento foi perfeito. Como em tantas vezes sucede na vida, o timing é tudo. “Na altura, tinha saído da Casa do Gadanha e andava à procura de um espaço, queria iniciar um projeto meu.” Quando olhou para o sítio, apercebeu-se de que o que tem de melhor e o torna especial também podia ser o seu ponto fraco: o isolamento.
O Esteva fica num lugar a que usualmente as pessoas chamam “o meio de nada”: segue-se por uma estreita estrada municipal que liga Borba à Orada, depois chega-se à entrada de uma herdade, passa-se o portão, segue-se o caminho de terra batida e, lá ao fundo, afastado de tudo o resto, existe um edifício isolado. É o restaurante.
A paisagem ao redor é fabulosa e reflete uma certa ideia de Alentejo que Francisca Dias procurava transmitir. Portanto, antes da gastronomia, o cliente entra no cenário ideal para um experiência seriamente alentejana. Por um lado, só ali vai quem realmente quer ir; por outro, é provável que muitos queiram muito ir ali. Perante o dilema, só uma decisão possível: aceitar e arriscar. E fez bem, uma vez que, segundo a própria chef, “correu acima das expectativas”.
Com um percurso sólido na cozinha, Francisca Dias demorou algum tempo até ter um projeto próprio, um restaurante com a sua assinatura. Porquê? “Foi, de certa forma, a vida. Teve de ser quando tinha de ser.”
A carreira de Francisca Dias começou em 2013, já lá vão 13 anos. A segurança de ter um salário é apontada como principal para nunca ter tido um projeto por conta própria. A segunda razão tem a ver com o facto de nunca a terem convidado para chefiar uma cozinha. “Se calhar, se me tivessem pedido, eu tinha ido.” Esse foi um barco que já zarpou. Agora, é demasiado tarde. “Chegou o momento na altura certa.” Diz que ou era agora, ou não era nunca. “Tenho 34 anos, tinha 33 quando começámos. Estou naquela fase em que tinha de ser agora.”
Fala do tempo e da exigência de chefiar uma cozinha. Fala da dedicação, da energia necessária, da disponibilidade física, mental e emocional que a função requer: “não é aos 50 anos que eu vou montar um projeto que me obrigue a estar lá noite e dia, já não terei força para isso.”
Quando surgiu o desafio de ficar com o Esteva, estava na então novíssima Casa do Gadanha (1 Sol Guia Repsol) e em simultâneo mantinha um programa de jantares ao domicílio. Num desses jantares, entre os clientes encontravam-se os anteriores gerentes do restaurante que hoje é seu. Foram eles que a desafiaram. E foi desse jantar que surgiram os primeiros clientes do seu Esteva.
Francisca foi a vencedora da primeira edição do programa Hell’s Kitchen, da SIC, em 2021. Não é uma condição de somenos - não apenas pelo facto de ter vencido, mas também porque estar numa montra com mais de um milhão de telespectadores por semana ajuda a dar nas vistas e faz com que exista curiosidade em seu torno. “Não foi, de todo, difícil promover o Esteva. Posso mesmo dizer que, passados quatro anos, colhi os frutos de ter estado na televisão.”
Na altura do programa, em plena era Covid, tudo estava parado, restauração incluída. Foi preciso esperar até outubro de 2024 para que a sua visibilidade amplificada trouxesse a recompensa. Todo o trabalho de divulgação do restaurante é feito pela própria e pela mulher de Francisca, Tânia Semedo, que é também quem faz a gestão da sala. “Tudo é orgânico”, afirma a chef, reconhecendo que a presença televisiva ajudou a que os média dessem atenção ao novo restaurante com a sua assinatura. Depois disso, “algumas pessoas vieram cá para ver se eu cozinhava tão bem como na televisão, para confirmar se eu merecia mesmo ganhar o Hell’s Kitchen”, conta Francisca Dias.
A experiência ao lado (e às ordens) do chef Ljubomir Stanisic, no Hell’s Kitchen, foi importante também a nível da cozinha. “Como em todos os trabalhos, mesmo que tenhamos um percurso já sólido, acabamos sempre por aprender mais qualquer coisa.” Os sabores intensos que então o chef sublimava - e, mais tarde, a passagem pelo 100 Maneiras, que era até há pouco do mesmo Ljubomir - marcaram o percurso e ajudaram a construir a identidade culinária de Francisca, que se identifica com essa intensidade dos sabores. A chef ainda hoje faz questão de “ter sabores fortes”, daqueles que, nas palavras da própria, “te dão pontapés na boca”. “Tens de sentir o palato cansado”, conclui - e uma prova de alguns dos seus pratos, como o soberbo Arroz de Cação, por exemplo, confirmam exatamente aquilo que diz e defende.
Agora, tendo essa identidade forte e vincada, e uma cozinha que faz da intensidade bandeira, como é que se combina a expectativa do cliente com a existência do fator-surpresa? Começa por dizer que a expectativa é o pior de tudo - porque cria antecipação, porque gera exigência, porque obriga a corresponder.
“Tens de ver a pessoa [o cliente], tudo depende da pessoa. Se o que lhe dás é o que ela está à espera de provar e corresponde ao que ela pretende, está tudo certo.” Isto não significa que não se procure surpreender. Quer antes dizer que há coisas que simplesmente estão certas, e dá o exemplo dos secretos de porco preto que encontramos na carta: “Só não sirvo em travessa porque não fazia sentido neste contexto, neste restaurante. De resto, cá, em Portugal, os secretos são carne grelhada, e carne grelhada leva sal e limão.” Ponto. Não mexe. Não estraga.
Francisca soube juntar, na ementa do Esteva, tradição e modernidade de maneira harmoniosa: sem reinvenções nem desconstruções, a chef pega no melhor do receituário regional e apropria-se dos pratos, fazendo-os ao seu gosto - que é, como se pode depreender do que afirma, com muito gosto. E, de novo, podemos falar do Arroz de Cação, por ser um exemplo fácil de explicar: um arroz de coentros com postas de cação que podiam estar em sopas (ou açordas, dependo da zona do Alentejo). Já existia? Parece que não. Fazia sentido que não existisse? De forma alguma. Era obrigatório que alguém o confecionasse, e Francisca assumiu a responsabilidade, vestiu a jaleca e chegou-se à frente, como quem diz “nada temam”. Só lhe podemos agradecer.
Francisca Dias e o seu Esteva foram distinguidos, em abril, com um Sol. Quando um chef recebe uma distinção deste calibre, o que é que acontece? Desperta-se a ambição e surge um apetite voraz por mais Sóis? “Não. Não quero aumentar mais”, responde, perentória. “São dores de cabeça que eu não quero para a minha vida”, esclarece. E depois acrescenta que não esteva à espera de ganhar o Sol, sobretudo por se tratar de um projeto com apenas um ano e meio de existência, enquanto muitos dos outros restaurantes reconhecidos existem há muito mais tempo e “têm uma visibilidade muito maior”.
Aproveita para acrescentar que o Esteva é, principalmente, um restaurante para o público local. “Tento que a minha carta seja minimamente acessível para o cliente daqui”, deixando claro que o apelo para quem vem de fora - seja de Lisboa, de Beja ou do estrangeiro, tanto faz - não é o combustível que faz andar o restaurante, é antes a consequência deste conceito: agradar a quem é dali e se torna cliente habitual. Até ver, funciona na perfeição.
Esteva. Herdade da Videira, Rua Herdade da Videira S/N, 7150-286 Borba. Domingo, segunda e quinta, das 12:30 às 15:00; sexta e sábado das 12:30 às 15:00 e das 19:30 às 22:00. 927739058.
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