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A vida são dois dias e o Porto Santo vê-se em pouco mais do que isso. Não é desmerecimento a esta bonita ilha (de gente ainda melhor). A realidade é que a ilha é pequena e tem boas estradas: tudo se faz perto.
Quer isto dizer que o tempo ideal para visitar o Porto Santo é um fim de semana. Nada mais errado: vá com tempo, até porque tudo lhe vai apetecer fazer com vagar — as caminhadas, as fotos nos miradouros, as estadias na praia, os almoços e lanchinhos. Marque para cima de uma semana e faça do Porto Santo a sua casa. Estas são sete sugestões para aproveitar a ilha dourada.
Se é uma pessoa viajada ou simplesmente bem vivida é natural que esteja habituado a dizer “já vi de tudo” e nós desafiamo-lo: de certeza que não viu uma destas. Há tanto tempo que não é possível contar (aproximadamente 12 milhões de anos), a exposição da lava do vulcão do Porto Santo ao ar (em condições muito particulares, certamente) formou uns prismas em movimento que ficaram fixados em pedra para sempre.
Com a erosão de parte desse vulcão, aqui estamos nós hoje para lhe olhar para dentro, e ver, para sempre fixado, o movimento da lava a tentar sair, no Pico de Ana Ferreira. São pequenas colunas pentagonais ou hexagulares, umas a seguir às outras, num efeito único e capaz de maravilhar mesmo os mais cheios de ver muita coisa única.
Se é dado às coisas místicas da natureza e da história, esta é igualmente uma paragem importante: Ana Ferreira foi a filha bastarda de S.João II exilada no Porto Santo e vista pela população com desconfiança — as lendas falam dos seus poderes ocultos que usava nas grutas, na outra vertente deste pico.
É possível ir até lá, com um guia local, bons ténis e força nas pernas. Se quiser maravilhar-se mais um bocadinho, vá mesmo antes do nascer do sol e aproveite para ver toda a costa de praia iluminada pelos primeiros raios da manhã.
É sempre preciso usar alguma fé para descer ao Porto das Salemas. Fé, desde logo, nos joelhos, porque a descida é íngreme e tem alguma pedra solta; fé que vai encontrar esta enseada paradisíaca de facto paradisíaca: com pouca ou nenhuma gente, pessoas pacatas e que estejam ali mais para aproveitar este pedaço de natureza do que uma música mexida qualquer.
O ponto é que de lá de cima, não nada lá para baixo — não se vêem as pequenas piscinas naturais, a praia em pedra rolada, a água transparente em maré baixa. Vale a pena, no entanto, tentar. Nas condições ideais (ou até mesmo perto das ideais), é um canto de total contato com a natureza e relaxamento — pelo menos até à hora de voltar a subir à estrada que percorre a costa Norte da ilha.
No Norte, as enseadas são de pedra, mas no Sul há o extenso areal de areia que batizou a ilha como dourada. De onde veio toda aquela areia (inclusive com propriedades especiais) numa terra vulcânica? Para os estudiosos do tema, veio daqui, desde mini deserto na costa Norte, a Fonte da Areia.
O vento terá depositado aqui toda esta areia branca e continua, além disso, a erudir pedras, conchas e fósseis. O resultado, depois de passar a primeira duna e entrar no coração desta fonte, é um pequeno deserto onde até colocamos a hipótese de nos podermos perder. Há caminhos entre mais dunas e alguns anfiteatros. Passados uns minutos dentro desta fonte, achamos estar mais perto de Marte.
O que nos chama novamente à Terra é alguma maquinaria pesada perdida: daqui se extraía areia para as construções da ilha até há bem pouco tempo. Hoje o local é apenas para passeio — e é uma maravilha.
A qualidade pré-histórica destas areias (a erosão terá 35 mil anos) faz com que tenham características especiais: é carbonatada, tem magnésio, cálcio e estrôncio e a isto podem associar-se benefícios para a saúde, como capacidades anti-inflamatórias. Por isso, o Spa do Hotel Porto Santo faz tratamentos com areia: deite-se numa caixa de areia e deixe-se cobrir por mais areia. Vai criar-se uma espécie de forninho e quando começar a suar é bom sinal: os minerais começam a ser absorvidos pela pele, garante o spa.
Bem perto há o miradouro da Fonte da Areia, com vista para o oceano do lado norte e para o ilhéu com o mesmo nome.
Pequenina e mimosa, assim é esta capital. Aqui não se vai perder, mesmo que queira. Não se deixe, no entanto, enganar pelo nome e tamanho: a Vila Baleira é, desde 2025, cidade. E o Porto Santo já merecia uma.
A povoação foi fundada no início do século XV e guarda ainda alguns edifícios da sua história antiga: toda a trama se organiza em torno do Largo do Pelourinho e dos Jardins do Infante. Aqui, entre palmeiras e plantas tropicais, há um dos fontanários de água calcárica plantados no século XIX (há mais espalhados pela ilha) e estátuas aos heróis do Porto Santo: os homens do mar, forçosamente — pescadores e homens que faziam o transporte de pessoas e mercadorias para a ilha da Madeira.
Outro dos heróis do Porto Santo é Cristóvão Colombo que, além de uma escultura do seu (imaginado) busto nos Jardins, tem aqui perto a sua Casa-Museu. Habitou o arquipélago no século XV, envolvido então no negócio do açúcar, e acabou mesmo por casar com Filipa de Moniz, a filha do fundador da Vila Baleira, Bartolomeu Perestrelo.
História e estórias a parte, a pacata Vila Baleira é um ótimo lugar onde abastecer-se — de souvenirs, claro, ou daquelas coisinhas secas e boas típicas do lugar. Em algumas das rulotes do largo vendem-se amendoins, bolos secos de melaço ou até bolo do caco que, dizem alguns especialistas, vem desta ilha e não da outra. A verdade é que nos restaurantes do Porto Santo comem-se alguns dos melhores.
Por falar em comer, um passeio pela Vila Baleira só acaba em beleza no Golfinho (Solete Guia Repsol). Escondido e virado para o mar, tem as melhores sandes de espada e de polvo da ilha e talvez do arquipélago.
No Campo de Cima estão monumentos da história popular do Porto Santo. E que bonitos exemplares. São os moinhos de vento tradicionais da ilha, datados do século XIX. Uma das engenhosas particularidades: têm rodas na base, que permitiam aos moleiros virá-los na direção do vento para os tornar mais eficazes.
Além de excelente cenário de fotos, são a prova de uma história que hoje pode parecer estranha: o Porto Santo já foi a região mais produtiva do arquipélago, rica em cana de açúcar, vinha (há projetos que estão a recuperar alguns dos seus vinhos a pouco e pouco) e cereais. A estimativa é que terão existido mais de cem destes moinhos e, nessa altura, a paisagem vista deste miradouro alto seria bem diferente: campos e campos verdes e cultivados. Hoje temos a bonita visão da floresta, do oceano e da Vila Baleira lá em baixo.
Além deste, há outros tantos miradouros na ilha que valem a visita: o Miradouro do Furado Norte, o das Flores, das Lombas ou do Pico do Castelo, são alguns deles.
Porque demoramos tanto a aqui chegar? Se é esta afinal a grande razão? Uma razão com nove quilómetros de extensão, areia fina e clara e mar calmo. A praia do Porto Santo, dita de areia dourada, é o grande chamariz da ilha. Aqui passam-se afinal umas férias descansadas: o clima começa a ficar bom para uns mergulhos logo com o início da primavera e dura até ao outono; a praia e o mar são planos, não oferecem grandes dúvidas; os hotéis estão todos instalados à borda da areia, para que ao pequeno-almoço possa surpreender toda a gente com “até já fui dar um mergulho”.
Ficar deitado a praticar aquela atividade que, apesar do nome, tem pouco de ação — “fazer praia” — é uma opção; fazer uma caminhada é outra; e se estiver cansado de ver tanta areia, há sempre a hipótese de ir ver areia de uma perspetiva diferente. Vá até à Ponta da Calheta, no extremo sudoeste da ilha. Aqui, além de areal, há umas pequenas piscinas naturais. Tem vista sobre o ilhéu da cal, de onde já se extraiu calcário, e um excelente pôr-do-sol.
Aliás fazer duas: comer sempre bem e esquecer a história das lambecas. Até porque uma implica a outra. As originais eram um soft ice cream que, mais do que terem qualidade intrínseca, transportavam qualquer um para a infância. No entanto, o seu fundador, o homem que deu início ao mito, José Reis, faleceu em 2024.
Não há razão para baixar os ombros: no Porto Santo come-se muito bem e, apesar de a oferta não ser tão vasta como na ilha vizinha, há muita qualidade. Vejam-se as espetadas do Teodorico, entre as melhores do arquipélago, quiça do país; os rissóis do Girassol ou as ponchas do Banheiro, feitas com frutas locais — um luxo. Siga este guia como Anexo I deste que acaba de ler e aproveite.
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