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Há uma série de coisas que trazem felicidade quando começam os meses sem “R”. De maio a agosto, a vida é boa, tudo é mais tranquilo (exceto o trânsito ao fim de semana em alguns locais) e tudo também é mais quente. E depois, há caracóis. Como é que pequenas lesmas cozinhadas num caldo apuradíssimo se transformaram numa iguaria particularmente apreciada no sul do país?
A história e a geografia explicam-no, mas aqui importa mesmo é saber onde podemos comê-los, bem feitos, bem servidos e a deixar vontade de voltar. Ora não é preciso procurar mais. Aqui está: um roteiro de 10 espaços, nos quais até pode levar mais para casa quando a dose terminar. Um mimo.
Sabemos que é um clássico assim que tiramos as medidas ao edifício e dizemos, do alto do nosso desconhecimento técnico sobre a matéria, que tem mesmo ar de clássico. Sabemo-lo também pelo letreiro na fachada, o 1984 como ano de nascimento ou o lema — “saberes e sabores”. E a carta, classicamente forrada a peixe e marisco, de acordo com a regra de Matosinhos e as leis da sazonalidade.
Assim sendo, e quando for época dela, não se espante ao ver as caracoletas assadas inscritas na secção dos petiscos. Servem para o “antes” e o “entre” o que mais houver, seguindo sempre os princípios que orientam o Gaveto. Esses mesmo, nada simples: os clássicos.
O Gaveto: Rua Roberto Ivens 826, 4450-279 Matosinhos. Telefone: 229 378 796. De quarta a segunda, das 12h às 22h30. Fecha às terças.
Parece coisa literária, mas facilmente descobrimos que é tudo verdade. Tente cumprir este desafio: de Leiria e a caminho do mar, atravessa a mata do Pedrógão e desagua na praia com o mesmo nome. Extenso areal, por vezes em luta com os elementos (é das coisas que dá charme à zona) e depois aquele restaurante para repousar a vista na natureza e no menu.
Vai perceber rapidamente que pode navegar pelo peixe fresco que vem de todo aquele mar ou que pode simplesmente deixar-se viver pelas ordens de uma bebida na esplanada. Mas quando chega a época, pode pedir caracóis. Os ditos têm uma particularidade interessante: não precisam de mais nada nem ninguém. Se houver companhia? Melhor. Se houver a bebida certa? Perfeito. Se conseguir juntar tudo na mesma mesa? Inveja. Mas se só tiver caracóis e um palito, será feliz na mesma. E nas Marés Vivas, a vista ajuda.
Marés Vivas: Av. de defesa e Propaganda 9 13, Pedrógão, 2425-458. Telefone: 244 691 303. Todos os dias, das 09h às 00h.
Tem muito boa fama, este Pomar de Alvalade (Restaurante Guia Repsol 2026). De tal forma que, entre quem não o conhece, é comum surgir a pergunta “o que tem o Pomar” para ser tema de conversa. Talvez uma das melhores formas de o explicar seja mudando o ângulo da explicação. Digamos assim: o que seria de Alvalade sem o Pomar? Seria a casa sem a sala, a cozinha sem o fogão, os pratos sem os talheres.
Dos arrozes aos fritos, do peixe acarinhado ao cozido quando é tempo dele. Com a relação qualidade-preço perfeita e um serviço que não soluça. E a partir de maio? Senhoras e senhores, a partir de maio há caracóis. Dos melhores. Dos mais bem feitos. Dos mais saborosos. Não duvideis. É pedir dose após dose e agradecer.
Pomar de Alvalade: Rua Marquesa de Alorna 21C, 1700-300 Lisboa. Telefone: 218 497 460. De segunda a sábado, das 08h às 22h. Fecha aos domingos.
É uma instituição, esta casa na Avenida Almirante Reis, no centro de Lisboa, que só fecha pelas 00h e é afamada pelo serviço constante, decidido e ágil. O nome não engana: Marisqueira do Lis (Restaurante Guia Repsol 2026). Portanto, há dois pontos fortes: o marisco, sem surpresas, e a carne, sem sobressaltos. Entre ambas as iguarias, a cola que tudo une (para quem dela gosta), gelada e bem tirada — nesta zona chama-se imperial e fazemos-lhe a devida vénia.
E pelo meio de todas estas contracurvas, os caracóis, quando chega a época. Aliás, até podem ser eles os donos do protagonismo. Se forem os ditos a motivar a viagem, tal vontade deve ser respeitada e o movimento repetitivo de os saborear deve ser treinado a fim de, mais cedo do que tarde, repetir a iniciativa.
Marisqueira do Lis: Av. Almirante Reis 27B, 1150-019 Lisboa. Telefone: 218 850 739. Das 12h às 00h. Fecha às terças.
A dada altura da vida, sabe o que importa mesmo? Sinceridade. Não queremos mais nada, só precisamos de saber com o que contar, para, a partir daí, tomarmos as nossas decisões em consciência — esperando sempre evitar um encontro com o engano. Esta é uma filosofia que pode ser aplicada a tudo, da política ao trabalho, do romance à comida.
Concentremo-nos nesta última, que foi para isso que aqui viemos: ao Júlio dos Caracóis. Entende o que dizia há umas linhas? Sinceridade. E o Júlio dos Caracóis é mestre nesta matéria. Aliás, nas duas, porque os caracóis aqui servidos são sinceros. É Lisboa, mas não é turística. É um clássico, mas não é antigo. Tem cozido e polvo, quando é suposto, mas chega a temporada certa e os caracóis são reis. Não há como ser enganado.
Júlio dos Caracóis: Rua do Vale Formoso de Cima 140 B, 1950-273 Lisboa. Telefone: 218 596 160. De terça a sexta, das 12h às 15h e das 17h30 às 21h30. Sábado e domingo, das 17h às 21h30. Fecha à segunda-feira.
Se houver ovas de choco, quem é que vai ter coragem de pedir outra coisa? Se o berbigão graúdo estiver disponível, haverá alguma alma preocupada com outro tipo de iguaria? Se o arroz de lavagante estiver no ponto habitual, alguém terá a bravura desonrada de se virar para outro destino? Pois aqui reside também o encanto dos caracóis: não saturam, não atafulham, não são causa de enfado nem de desatino. Preenchem os espaços, convocam diálogos, atenuam a espera, acalmam as ânsias. Daí que tê-los à mesa da marisqueira Pinga Amor nunca é um excesso nem um mal-entendido. Engano mesmo é a mania de ouvir o nome “Setúbal” e só pensar em choco frito — e se o dito é bom nesta casa.
Pinga Amor: Rua do Morgado de Setúbal 61, 2910-672 Setúbal. Telefone: 934 254 483. Das 12h às 15h e das 18h às 22h. Fecha às segundas.
Vamos partir do princípio que quem lê estas linhas aprecia fazer o Algarve rodoviário pela chamada “estrada antiga”. Preferindo a Nacional 125 à Via do Infante, vai encontrar o que a auto-estrada não dá: restaurantes, cafés, snack-bares e outros estabelecimentos de beira de estrada. É um conceito que, em algumas localidades do país, foi desaparecendo — até falecer em direção ao céu dos botecos, em alguns casos.
O Algarve ainda é fértil neste universo e na direção Olhão — Resto do Sotavento Algarvio vai encontrar o ainda clássico e difícil de superar O Primo dos Caracóis. Não há que enganar, não há mais artifícios, não há distrações. Estacione, se conseguir, sente-se, se arranjar lugar, peça uma dose e depois deixe a vida correr.
O Primo dos Caracóis: N125 27k, 8700-127 Moncarapacho. Telefone: 289 702 662. Das 09h às 22h30. Fecha à segunda-feira.
Não fica no centro de Portimão, não fica junto à praia. Não tem decoração pronta para ser partilhada nas redes sociais e não tem os pratos coloridos que parecem filtros de aplicação moderna. Aliás, até o nome é simples, mas muito explicativo sobre a relação que por cá se estabelece com esta “delícia para uns, pesadelo para outros”. Em português, “O Caracol”, simples, eficaz, ilustrativos, atrativo, verdadeiro. Em inglês, “The Snail”, e chega para afastar seja quem for.
Somos dados a este tipo de relações gastronómicas, dificilmente compreensíveis à distância, mas que se alimentam de história, tradição, o pão certo no melhor molho e sítios com esta Taberna O Caracol, que não quer mais nada a não ser fazer os seus visitantes felizes com a especialidade da casa. Por tudo isto, o nosso obrigado.
Taberna O Caracol: Estrada das Castelhanas, Portimão. Telefone: 282 413 554. De terça a domingo, das 10h às 21h. Fecha à segunda-feira.
Coisas que apoquentam quem se passeia por estas terras algarvias: a que horas são 16h30, mais ou menos a marcação para a abertura de portas da Casa da Igreja (Solete no Guia Repsol), que em Cacela Velha reúne gente na rua há anos para comer das melhores ostras possíveis, ou as amêijoas e o camarão, tudo o que a ria lá em baixo tenha oferecido nesse dia. É de sonho, uma vez lá sentados. É de pesadelo, esperar por um lugar enquanto vemos os outros a ser felizes.
O que também traz felicidade aqui é quando há caracóis. Não há resposta óbvia quando a pergunta é “mas e esses, comem-se quando?”. É quando a vontade mandar. Seguimos-lhe as leis, aclamamos o molho, fazemos uso do pão e, assim que possível, repetimos tudo.
Casa da Igreja: Rua de Cacela Velha 2, 8900-019 Cacela Velha. Telefone: 965 891 240. Todos os dias, das 16h30 às 22h.
Não é que alguém tenha perguntado, mas, e apesar disso, vai daqui a explicação de uma teoria. Os caracóis são de tal forma sedutores (para quem os aprecia, naturalmente) que tendem a ultrapassar todas as tarefas que acompanham.
A dose de caracóis é, filosoficamente, servida para quem tem uma conversa, para quem vê um jogo da bola e também para quem faz uma pausa nos mergulhos e os deglute ao mesmo tempo que põe os olhos no mar e na toalha, apaixonado pelo primeiro, receando perder a segunda.
Pois bem, até em sítios como o MarAMais (Solete no Guia Repsol), em cima da água (isto é literal) na ilha do Farol, em plena Ria Formosa e junto a Faro, numa espécie de paraíso tão próximo e tão impossível, até aí os caracóis se transformam em protagonista. Ajuda o facto de serem muito bem feitos, é preciso admitir.
MarAMais: 8700-160, Ilha do Farol, Faro. Telefone: 918 880 028. Todos os dias, das 11h às 17h30.
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